O reencontro

  É como se o tempo não tivesse passado... Você disse isso e tudo voltou como uma avalanche - o sentimento, a familiaridade, a vontade de estar junto, a sensação de que o mundo nos pertencia. 

  Nossos olhares se cruzaram atravessando todo aquele salão de festas. Em 10 anos, era a primeira vez que nos encontrávamos estando ambos solteiros. Inevitavelmente, veio o frio na barriga e a ansiedade em relação aos próximos dias. 

  Era aniversário de 96 anos da nossa matriarca. Há 6 anos, anualmente, comemorávamos o aniversário dela com a família inteira reunida - incluindo irmãs, cunhadas(o), primos e primas, filhos e filhas, genros, noras, netos e netas, bisnetos e bisnetas. Eu era neta, ele, bisneto. E nossa história havia começado na infância. 

Naquele dia, conversamos um pouco durante a festa, com a impressão de que todos da festa nos seguiam com os olhos e tentavam decifrar o que conversávamos. Era de conhecimento geral a nossa história. Ficamos de um lado pro outro, nos olhávamos, sorríamos... até que nos cruzamos e travamos um curto diálogo. 

Quanto tempo! Tá sozinha? 

Pois é... tô, e você? 

Também... 

Como você tá? 

Tô bem, e você?

Bem também...


  Um diálogo sem graça, mas que escondia tanto sentimento e saudade quanto externava a falta de assunto. 

  Passamos a festa assim: um andava pra um lado, outro pro outro, de vez em quando nos olhávamos, sorríamos um pro outro, frio na barriga... até que a festa acabou, já era cerca de 10 da noite, mas a ansiedade em podermos conversar e nos aproximarmos no final da noite, longe dos olhos curiosos e julgadores da família toda, estava a mil. 

  Todos muito cansados, mortos depois de um dia inteiro de festa. Nos esforçamos pra parecer animados e com fome - eu tava entupida de comida depois de um dia inteiro comendo na festa, mas concordei quando ele disse no meio dos meus irmãos, cunhado, sobrinhos e alguns primos: nossa, que fome... vamos comer uma pizza? E eu: nossa, sim, tô morrendo de fome.

  E lá fomos nós. 11h40 da noite pra pizzaria. No caminho, foi como se tivéssemos voltado 20 anos atrás. Fomos juntos no banco de trás, abraçados e fazendo brincadeiras de paquera de pré-adolescentes que recém descobriram a paixão. Ele provocava com alguma brincadeira, piada ou tiração de onda, eu ria, fingia estar irritada e assim ia.

 Na pizzaria, trocamos de lugar pra sentarmos juntos, mesmo não tendo pedido sabores iguais, o que incomodou todos na mesa. Eu tava com zero fome, mas ele ainda comeu umas 2 fatias. Eu me esforcei pra comer uma, afinal, havia dito anteriormente que tava morrendo de fome. 

Nunca foi um relacionamento aprovado pela família, mas também não era algo completamente assumido. Alguns fingiam que não sabiam, outros sabiam abertamente e outros nem desconfiavam - era como se fôssemos apenas primos muito próximos. Dessa forma, nem todos estavam tão confortáveis com a nossa reaproximação, mas depois de 10 anos essa era a menor das nossas preocupações.

   Saímos da pizzaria, fomos pra casa da minha tia/avó dele. Eu ficaria lá com meus pais e filhos, e ele foi pra casa da minha prima/tia dele. 

  No dia seguinte, teria a costumeira comemoração do dia seguinte. Meu tio faria uma feijoada, e, dessa vez, só os filhos e filhas, genros e noras, netos e netas, bisnetos e bisnetos estariam presentes. Mas, exatamente como acontecia antes, ele não estava lá. Tinha ido pra um campeonato de skate. Esperei por ele o dia inteiro, até que, no final do dia, ele voltou, e nossos olhares não esconderam a alegria em nos vermos novamente. 

   Quando todos foram embora, fomos assistir um filme. Meus pais foram dormir, porém, meu pai levantava a cada 30 minutos pra nos checar. 

  É como se o tempo não tivesse passado, esperei o dia todo pra te ver. Tava ansioso pra voltar pra casa. Tudo voltou. 

  Assistimos um filme qualquer. Ele deitado no meu colo. Eu, fazendo carinho na cabeça dele. Ele pegava na minha mão, e eu sentia o corpo todo arrepiar. Ele levantava o olhar, e eu queria dizer eu te amo, mas as palavras não saíam. Tudo como acontecia há 12 anos. Assistimos mais um filme, esperando que meu pai dormisse e não fosse mais na sala. Mas, ele foi. Porém, não antes de conseguirmos dar um beijo com gosto de saudade e reencontro. Eu senti aquele beijo rápido em cada célula do meu corpo. Era como se meu corpo, minha alma, ansiasse por aquele momento. Senti a alma estremecer. E eu fui dormir sonhando acordada. 

  O plano era passarmos 3 dias na casa da minha tia, mas no dia seguinte acordei com meu pai anunciando que estávamos indo embora. 

E esse foi só o começo daquele reencontro.

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