Era o começo e nem imaginávamos

Minha família tinha ido passar um tempo em São Paulo, por conta de uma obra em que meu pai foi trabalhar. Na ocasião, eu tinha 6 anos, e tava deixando toda a vida que uma criança de 6 anos pode ter pra trás - minha melhor amiga, amigos, a secretária de casa que ajudava minha mãe a cuidar de mim e brincava comigo. Enfim. E toda a tristeza que uma criança dessa idade poderia sentir por uma separação das pessoas que faziam parte da sua vida, eu senti. Criança não tem muita noção de tempo, então, pra mim, seria uma eternidade.

Em São Paulo, tínhamos praticamente toda a família do meu pai e da minha mãe espalhados pelo estado, o que foi bom pra todos nós, porque a cada comemoração estávamos juntos e eu estava perto dos meus padrinhos, por quem eu era completamente apaixonada.

Dentre os parentes, tinha o Gui, filho da minha prima que era mais velha que eu. Nós tínhamos dois anos de diferença. Ele era mais novo. Gui morava em um interior perto de onde eu estava morando, e, em algumas reuniões de família na casa do meu tio, nos encontrávamos. Nessas ocasiões, sempre brincávamos juntos de casinha ou outras brincadeiras. Como eu era a neta mais nova, muitas vezes, eu brincava com os bisnetos da minha avó, que tinham a idade mais próxima da minha. Teve uma ocasião em que, curiosos, eu e Gui tentamos dar um selinho no banheiro, mas, por algum motivo, não deu certo. Parecia só curiosidade, mas o tempo foi mostrando que iria além.

Ele era um menino adorável - carinhoso, legal, divertido, engraçado. E nós brincávamos despreocupados, como se tivéssemos todo o tempo do mundo.

Me lembro da última vez que nos encontramos antes de eu voltar pra minha cidade. Por coincidência, estávamos ambos nos despedindo dos nossos familiares por um bom tempo. Eu, voltando pra São Luís depois da obra acabar, ele, indo embora pro Japão acompanhando a tia dele que ia pra trabalhar. Assim, fomos cada um pra um lado do planeta, literalmente.

E nisso, passaram-se 4 anos sem contato. Eu cresci um pouco, ele também. Cada um na sua vida. Voltei pra escola de antes de eu ir embora, mudei de escola, fiz novas amizades e até tive o meu primeiro paquera, Luis. Foram 4 anos em que a memória dele tinha ficado adormecida. Fui vivendo a minha vida, brincando com outras crianças. Até que…

Era setembro, Gui tinha acabado de voltar do Japão, onde passara alguns anos com a minha prima/tia dele. Eles vieram visitar os nossos familiares que moravam na minha cidade. Eu tinha por volta de 9 anos. Ele, 7. Veio passar 20 dias. 20 dias da primeira vez que eu quis tanto alguém por perto, mas, na época, parecia só uma grande amizade - se é que nessa idade temos grandes amizades.

Como todos os familiares quando vinham nos visitar, ele ficou na casa da minha avó, que era muito próxima de onde eu morava, de forma que nos encontrávamos quase todos os dias pra comer, ir pro shopping, ir pra praia, viajar pra cidadezinhas próximas, ou quaisquer outras programações que nossa família resolvesse fazer. Só não nos encontrávamos mais porque era meio de semestre e eu estava em aula.

Em todas essas ocasiões, estávamos grudados. Literalmente. Íamos abraçados no carro, na rua, no shopping, no barco. Quando não, íamos de mãos dadas. Éramos muito novos, de forma que não havia nada de sexual nesse grude. Era só um bem querer e uma vontade de estar perto muito fortes. Conversávamos pouco, embora estivéssemos sempre próximos.

Foram 20 dias que eu não achava e nem queria que acabassem. Mas, acabaram, e ele voltou pra cidade dele. Passamos mais um tempo sem nos vermos.

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